Por Françoise Girard

“Estamos mais ou menos acostumadas com esse novo modelo, onde não há financiamento”, disse Sueli Carneiro, do grupo feminista negro Geledés, quando encontrei com ela e com suas colegas em São Paulo há algumas semanas. “Os grupos estão sobrevivendo basicamente de forma virtual, usando comunicação online como ferramenta de mobilização”.

O Geledés foi, na verdade, um grupo pioneiro nessa nova abordagem. Em 1995, o grupo criou um portal na internet, com artigos e comentários sobre um amplo leque de questões que afetam a vida das mulheres. Hoje o portal é surpreendentemente visitado por 2 milhões de pessoas ao mês.

Por mais de 20 anos, a IWHC (Coalizão Internacional pela da Saúde da Mulher), vem apoiando organizações feministas especiais no Brasil – um comprometimento que ajudou no avanço da saúde das mulheres e  nos seus direitos, em um país grande e complexo. Contudo, confesso que estava ansiosa sobre minha mais recente viagem. Minhas visitas anteriores foram em 2012 e 2014 e deixaram a mim e minhas colegas da IWHC preocupadas com o estado atual do movimento feminista, com o aumento do fundamentalismo religioso no Congresso Nacional, com a falta de motivação do partido do governo (o Partido dos Trabalhadores) e da Presidenta Dilma Rousseff em terem uma posição corajosa acerca dos direitos sexuais e reprodutivos. Rousseff – já elogiada como campeã na luta da equidade de gênero – distanciou-se significativamente desta agenda, nada fazendo para acabar com trágicas mortes de mulheres por conta de abortos inseguros, e indo mais longe ainda ao censurar materiais sobre educação sexual e campanhas de prevenção de HIV/AIDS.

Enquanto isso, a profunda corrupção nos mais altos escalões do país e as expectativas frustradas dos brasileiros acerca da qualidade dos serviços criaram uma severa crise econômica e política. O financiamento governamental para as organizações feministas que fornecem serviços essenciais, como aconselhamento e apoio para vítimas de estupro, tem sido drasticamente cortado. Sem o apoio do governo, as organizações sem fins lucrativos têm oportunidades limitadas para angariar fundos no Brasil, uma vez que não há incentivo fiscal para doações. O que algumas instituições filantrópicas fazem tem foco em projetos de caridade, como a construção de hospitais, e não um trabalho de advocacy ou controle social.

Infelizmente, a ajuda internacional também secou. Enquanto o Brasil cresceu economicamente, muitos dos doadores internacionais para os  movimentos sociais brasileiros saíram de cena, supondo que a sociedade civil formada pela classe média não necessitava  de apoio externo. Era essa a teoria.

A realidade é que grupos feministas estão por um fio. As organizações bem estabelecidas tiveram que abrir mão de profissionais experientes, e as suas habilidades para pressionar os líderes do Governo é muito reduzida no momento em que mais se necessita.

A IWHC é um  doador catalisador, mas somos doadoras relativamente pequenas e necessitamos de estratégia para os nossos apoios financeiros. E aqui está a nossa pergunta: existe alguma chance de a IWHC continuar apoiando os grupos feministas brasileiros neste terrível contexto?

O que encontramos desta vez foi algo novo, como tentativas de caminhos diferentes para novas formas de ativismo. O Brasil é o segundo maior mercado em mídia social do mundo depois dos EUA, e as organizações da sociedade civil aproveitaram essa oportunidade para prosseguirem com seus trabalhos numa época de recursos escassos.

Grupos como o Geledés, que há algum tempo já dominavam esse meio continuam fortes, apesar das restrições econômicas. E novas jovens ativistas surgiram. As Blogueiras Feministas – uma rede de mais de 1.000 blogueiras –  estão se reunindo de maneira informal para mobilizar ações pelos direitos das mulheres, como a já conhecida e acaloradamente discutida Marcha das Vadias. Elas começaram a juntar forças com outras organizações feministas já estabelecidas, com acordos que nem sempre são fáceis, mas onde os dois lados avaliam que desejam continuar.

Para superar a distância entre o novo e o antigo, uma parceira de longos anos da IWHC, o CFEMEA, criou uma inovadora e gratuita universidade online, chamada Universidade Livre Feminista. Incialmente desenvolvida como espaço de aprendizado sobre a história feminista e sua teoria, o CFEMEA adaptou-a a um modelo mais dinâmico com o objetivo de atingir jovens ativistas. Lá, é fácil encontrar um canal de TV feminista, uma galeria de ativismo artístico para compartilhar arte com inspirações feministas, um mapa interativo com endereços de onde se encontram coletivos feministas no mundo real e, claro, cursos sobre ativismo feminista.

Juntas, essas veteranas e jovens feministas estão planejando ações significativas sobre direitos relativos ao aborto. Em setembro de 2015, feministas brasileiras farão um grito de guerra para a descriminalização do aborto na Marcha Mundial das Mulheres. Ativistas estão derrubando o estigma do aborto ao coletarem depoimentos de mulheres que passaram por abortos sofridos, inseguros e clandestinos. As mulheres que aparecem nos vídeos e no blog Clandestinas estão expondo a si próprias de forma profunda, desafiando o silêncio que durante muitos anos permitiu que as elites do país  fechassem os olhos para o número de cerca de um milhão de abortos ilegais e inseguros feitos todos os anos no Brasil.

Ainda neste ano, feministas brasileiras planejam realizar a primeira marcha nacional de mulheres negras no país. Sueli e o Geledés estão se posicionando em um papel de liderança na organização da marcha. É prudente dizer que, se uma fração dos 2 milhões de leitores mensais do portal Geledés aparecer, a marcha será um grande sucesso.

Este ativismo ousado frente a uma oposição convicta é a razão pela qual a IWHC continuará a financiar grupos feministas – sejam eles novos ou antigos – no Brasil.

Depois de tudo, Sueli me disse com um largo sorriso, “a IWHC nos deu nosso primeiríssimo apoio de cinco mil dólares, no início dos anos 1990. Logo, o investimento de vocês realmente valeu a pena!”.

Quem poderia se opor a isto?