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Mariana Cintra Rabelo

Written By: Mariana
March 25, 2010

 

A minha principal preocupação, quando penso na forma em que nós mulheres somos tolhidas de protagonizar nossos desejos, prazeres e decisões sociais e pessoais sobre nossos corpos, incluindo sexualidade, expressões cotidianas, vestimentas, acessórios, cuidados, higiene, maternidade, saúde, é com o falar.

Falar de nossas frustrações e expectativas, das nossas experiências, de se tocar, das violências que sofremos, de achar palavras que nos contemplem, poder admirar mulheres que não tenham uma imagem simbólica e física hegemônica.

Pois é a partir da fala que tudo pode ser transformado, na linguagem se forjam os meios e as técnicas de discriminação e de violências. Mas pela linguagem, pelo conhecimento de como são construídos os discursos e os símbolos misóginos, homofóbicos, lesbofóbicos, racistas, sexistas, pelo entendimento de que novas palavras, termos, discursos e símbolos podem ser criados e ressignificados, temos a chance de um fortalecimento conjunto de trocas, de reconhecimento das vivências femininas, da capacidade de lutar contra mitos pejorativos e coerções sexuais destinadas às mulheres heterossexuais, lésbicas, bissexuais, negras, índias, transexuais.

A misoginia é um dos pilares de uma sociedade injusta, que não respalda as mulheres devidamente em suas negociações e construções políticas sobre direitos humanos. As violências de gênero são sistematicamente a base para o acúmulo de discriminações e para a reprodução de uma sociedade de relações culturais respaldadas na assimetria. Assim, penso que a principal forma de promover uma mudança estrutural no simbólico e prático do tratamento destinado às mulheres nas sociedades pós-colonizadas é fortalecer as mulheres.

Se eu ganhar o Jovem Visionaries Concurso e me fosse concedido U$ 1000,00, construiria um projeto para mulheres adolescentes, de 12 a 15 anos, com o propósito de criar um ambiente propício à desconstrução dos mitos e discursos violentos que permeiam toda experiência corporal, mental e física durante nossa formação social e de personalidade.

Este projeto seria destinado a um público de 30 (trinta) jovens adolescentes de periferia que vivem nas cidades satélites de Brasília (Distrito Federal – Brasil), contando com o desenvolvimento de 4 (quatro) oficinas temáticas. Todos os temas ligados ao empoderamento pela palavra: uma sobre sexualidade, outra sobre maternidade, outra sobre racismo e, por fim, uma de construção de mídia independente e gênero.

A oficina de sexualidade seria composta de três etapas. A primeira será uma apresentação de si, com o uso de espelhos cada jovem diria algo sobre si que acha importante e o que vê no espelho, depois seriam feitos auto-retratos de como gostaria de ser, para finalizar esta etapa, um debate sobre a dissonância e a concordância de como cada uma se vê e como gostaria de ser, as razões do resultado e sobre os mitos de incompletude das mulheres na sociedade.
A segunda etapa consistirá numa dinâmica em que, divididas em 5 (cinco) grupos, as jovens interpretam para toda a turma um estereótipo de mulher apresentado a cada grupo por uma foto. As fotos seriam de estereótipo de uma modelo, de uma lésbica, de uma travesti, de uma empresária e de uma faxineira. Após a elaboração de cada grupo e suas respectivas encenações, os outros grupos tentam adivinhar qual o estereótipo representado, por fim, um grande debate será feito sobre a construção de estereótipos femininos, a incoerência e os prejuízos que trazem às experiências de cada mulher.
A terceira e última etapa da oficina de sexualidade será destinada a repensar por um debate como as mulheres são tratadas, de acordo com suas especificidades, pela sociedade, principalmente nos meios de comunicação e na família. Neste momento, definição de termos e conceitos como homossexualidade, homofobia, lesbofobia, racismo, feminismo, misoginia, machismo de uma forma dialógica. Por fim, o dia terminaria com uma dinâmica de massagens em uma grande roda com música ao fundo, dando ênfase à capacidade de carinho e cuidado que as mulheres podem construir entre si.

A segunda oficina, sobre maternidade será destinada a repensar os mitos da obrigatoriedade materna e das possibilidades de vivenciar uma maternidade e uma vida sexual saudáveis. Ela será dividida em duas etapas, na primeira cada jovem que quiser expressar o que pensa sobre ser mãe, se sente cobranças em relação a isso, se sente medo, vontade, tem dúvidas, ao fim desta etapa serão explicados o uso de métodos contraceptivos e de prevenção de DST (doenças sexualmente transmissíveis) tanto para experiências heterossexuais como homossexuais. A segunda etapa será uma exposição e um debate sobre aborto, quais são as demandas em torno da descriminalização, qual a legislação vigente e, por fim, quais os motivos políticos da criminalização de mulheres que realizam abortamento.
A terceira oficina terá como tema o racismo. Serão apresentadas 5 (cinco) músicas e/ou poesias que tratam da negritude de forma positiva, dividindo a turma em 5 (cinco) grupos, cada um ficará responsável por analisar a música e/ou poesia e fazer outra música e/ou poesia para apresentar para toda a turma cujo conteúdo contraponha a mensagem do material obtido com as experiências cotidianas das jovens dos grupos ligadas à negritude e racismo. Será, então, apresentada uma retomada histórica de como se constituiu e constitui o racismo no Brasil, as formas legais de combate ao racismo, inclusive políticas públicas para dar seqüência a um debate sobre racismo, machismo, negritude e educação (retomando as experiências escolares de cada uma, as mensagens dos livros didáticos, as mensagens veiculadas pela mídia).

A última oficina, sobre mídia independente e gênero, cujo tema consistirá produção por parte das participantes de materiais de comunicação. Primeiramente várias opções de mídia serão expostas, como zines, revistas, músicas, poesias, jornais e dança, a turma será dividida em 6 (seis) grupos e cada um escolherá uma mídia para construir. A abordagem de cada grupo será livre sobre os temas trabalhados nas oficinas anteriores, serão compartilhados com toda a turma e depois reproduzidos por meios de filmagem, gravação, cópia ou foto para que todas as jovens levem uma quantidade para distribuir para pessoas de sua comunidade. Para terminar o projeto, cada jovem dirá em minutos como foi a experiência com as oficinas, com a turma, com os temas e com a mediadora.

Cada oficina acontecerá aos sábados de forma consecutiva, pois é mais provável que não prejudique os dias letivos das jovens e nem suas responsabilidades cotidianas, com a duração de 6 (seis horas), havendo um período de 40 (quarenta) minutos para almoço, começando às 10 (dez) horas da manhã e terminando às 16 (dezesseis) horas da tarde.

O dinheiro será utilizado para auxiliar o transporte das participantes, inclusive o meu enquanto mediadora e de mais uma ou duas prováveis colaboradoras; para a compra de material para realizar as oficinas; para o preparo de um almoço para todas as participantes e para a reprodução mínima das mídias elaboradas para que as participantes levem às suas comunidades.

Acredito que o contato com este espaço de trocas, esclarecimento e fortalecimento sobre questões cruciais que cercam as problemáticas de gênero, será de grande importância para todas as jovens, para o relacionamento com outras pessoas dentro das esferas sócias das quais participam. O contato, talvez primeiro, com estes temas terão efeito para que busquem saber mais sobre violências de gênero e as lutas contra elas, além da possibilidade da abertura de diálogos e auto-credibilidade para se expressar em situação adversas e políticas.

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